quinta-feira, fevereiro 15, 2007

SILÊNCIOS E RUÍDOS NO FENÓMENO DA DROGA



1. NADA SOBRE NÓS SEM NÓS
Noutros países, a redução de riscos (RR) foi um movimento iniciado com uma contribuição importante dos próprios interessados, os utilizadores de produtos psicoactivos ilegais. A Junkiebond, associação holandesa de utilizadores de heroína, foi a pioneira da troca de seringas em meados dos anos 80. A Technoplus, de Paris, avançou nos anos 90 com a intervenção em ambientes festivos. Um dos seus membros, Jean Marc Priez, foi passado algum tempo acusado formalmente de incentivo ao consumo de drogas, desenvolvendo-se em torno desta acusação um grande debate, que ultrapassaria as fronteiras francesas, sobre a intervenção em RR e sobre o direito do Estado a regulamentar os estilos de vida dos cidadãos. Priez seria absolvido, reconhecendo-se deste modo por via legal a legitimidade do trabalho de RR. Conviria agora, a meu ver, proceder com o mesmo escrúpulo e sentar no banco dos réus psiquiatras que induzem o consumo continuado de vários psicoactivos, abrindo a porta a dependências farmaco-legais…
A emergência das políticas RR, olhada pelo lado da sua promoção através dos próprios utilizadores, pode ser vista como um movimento social no campo da afirmação dos direitos civis sobre a ingerência do Estado, que no campo das drogas tem sistematicamente sido gerida por cúpulas políticas e técnicas que não ouvem os interessados. Daí o slogan Nada sobre nós sem nós

2. TUDO SOBRE NÓS SEM NÓS
Em Portugal, esta capacidade de auto-organização de actores sociais cujas práticas são alvo de desconfiança ou de censura morais é débil. Podíamos discutir as razões deste imobilismo. Por agora, sublinhemos apenas o facto de os utilizadores de drogas ou os trabalhadores sexuais não terem associações, não tendo por isso modo de se fazerem representar na discussão pública ou na elaboração de documentos estratégicos que visam o controle dos seus comportamentos, mesmo quando relevam exclusivamente da esfera privada. Dito doutro modo, esta ausência de auto-organização tem como consequência a impossibilidade de controlarem as abundantes representações sociais que circulam a seu respeito, normalmente baseadas em simplismos grosseiros que se prestam ao espectáculo mediático. Em suma, em Portugal tem vigorado o Tudo sobre nós sem nós…

3. O GRUPO R3
Enquanto a auto-organização dos utilizadores de drogas não acontece, que canais podem ser activados para que eles não estejam silenciados no meio do ruído que a droga provoca?
Quando ao facto de se ser utilizador se junta o de ser toxicodependente, quando a este facto se junta o de se ser junkie, passando a habitar o lado marginalizado da vida social, que possibilidade se tem de se ser escutado? Quem pode estar mais perto da palavra dos mais estigmatizados nas drogas? Os que convivem com eles, através da intervenção em equipas de primeira linha, naqueles que passaram a ser os seus contextos de vida à medida que se foram fixando em torno do estilo de vida junkie.
Está agora a subir de tom o debate sobre as salas de consumo assistido e deviam ser estes os que agora tomam a palavra, mas o que está já a acontecer é a apropriação politico-partidária das medidas RR, como sempre tem acontecido no campo das drogas: o reino dos aprioris, das tácticas, da argumentação sustentada no preconceito.

Luís Fernandes - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto