O Arranque das "Salas de Chuto" II
Tomo aqui Maria José Nogueira Pinto como exemplificativa dum sector da sociedade que defende a moral tradicional. Os partidos conservadores têm como fundamento ético da sua luta política justamente esta moral – o que não tem rigorosamente mal nenhum, se ela for aberta à discussão dos problemas naquilo que eles são na realidade e não na abstracção de valores que seriam inquestionáveis. A política conservadora é aquela que conserva, quer dizer, que resiste por definição à mudança. Há 20 anos, os políticos conservadores e suas extensões mediáticas resistiam à ideia de que o toxicodependente fosse um doente, porque o registo de longa data a seu respeito era o da delinquência. Hoje, repetem incessantemente que é um doente, e por isso querem reforçar a prevenção e o tratamento em vez de perder tempo em medidas complacentes como as da RR – agora, que andamos há 20 anos a insistir que o modelo da droga-doença é insuficiente para dar conta da real complexidade do fenómeno…
A moral pública conservadora assenta na premissa abstracta de que a droga é má por definição. O problema está justamente na definição: afinal, o que é a droga? Por que não denunciam com a mesma força os lobbies do tabaco e do álcool? Por que é que uma sala de chuto para junkies marginalizados é má e o consumo psicotrópico desenfreado em happenings de elite não é exposto ao olhar crítico da sociedade? Esta moral bate-se por uma sociedade livre de drogas – quer dizer, de certas drogas consumidas por certo tipo de actores sociais. A “sociedade livre de drogas” é um valor inquestionável, que não está portanto à discussão. Esta visão mantém-se à custa de ignorar a realidade do fenómeno psicotrópico tanto ao longo da história (não há sociedades livres de substâncias alteradoras da consciência e da vontade humana de superar os seus limites através da “viagem”). Ou seja, a sociedade livre de drogas enquanto valor e enquanto horizonte utópico não é questionável porque tal visão recusa confrontar-se com o grande questionador deste valor abstracto: a própria realidade social, no seu passado, no seu presente – com toda a certeza, no seu futuro. Em vez de uma sociedade livre de drogas, prefiro lutar por uma sociedade livre. A liberdade, essa sim, pode ser defendida enquanto valor abstracto e é a grande marca identitária do indivíduo inventado pela Modernidade.
Um dos argumentos mais perigosos no debate de ontem, avançado por Nogueira Pinto, é o de que os dois locais onde se instalarão salas de chuto serão sujeitos ao estigma e transformar-se-ão em pólos de atracção de toxicodependentes, gerando tensões nas vizinhanças. Eis um tema clássico, que há dez e quinze anos víamos a propósito da instalação de CATs. Não conheço Lisboa com pormenor e não sei localizar os dois lugares que referiu. Mas penso que haverá o bom senso de escolher lugares onde elas sejam precisas – melhor, urgentes. E se assim for contribuirão para pacificar a zona, para sanitarizar os próprios espaços públicos, para proteger moradores e toxicodependentes.
Nogueira Pinto mostra-se muito preocupada com o tratamento dos toxicodependentes, pensando que a RR acaba por protelar uma decisão pessoal de aderir a um tratamento. Desconhece, obviamente, os números: não sabe, ou não quer ver, que a maioria dos toxicodependentes de longa trajectória não frequentam as estruturas de tratamento e, sozinhos, não as procurarão. Está preocupada com a humanização que representa o ingresso no tratamento, mas não parece incomodar-se com o destino dos que fizeram da rua o seu lugar de permanência, sendo com frequência alvo de agressões, às vezes protagonizadas por crianças e adolescentes destas zonas, às vezes protagonizadas por polícias cuja heroicidade se sente realizada com a agressão de indivíduos incapazes de reacção.Só para acabar (por agora): Nogueira Pinto está preocupada em preservar os cidadãos do impacto negativo das salas de chuto. E por que nunca se preocupou em preservar as famílias que procuram resposta para um filho toxicodependente do negócio das desintoxicações praticado em certas clínicas que combinam altos preços e baixos resultados? E disto, quem nos defende?

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