O Arranque das "Salas de chuto"
Como eram possíveis estes cenários? A causa era a droga, evidentemente. A droga, assim enunciada no singular, entidade dotada dum princípio maléfico que arrastava corpos e espíritos para a voragem da dependência sem tréguas. Solução? Difícil, muito difícil. Desintoxicar, tratar, reinserir, diziam os especialistas. E o trabalho terapêutico lá se ia fazendo. A pedra, como no mito grego, chegada ao cimo da montanha, rolava teimosamente pela encosta abaixo. Havia que subir outra vez, numa ida e vinda incessante entre tratamentos e recaídas. Na Spitzsplatz, no Casal Ventoso, juntavam-se entretanto mais e mais toxicodependentes. E veio então o VIH – agora não podíamos preocupar-nos só com a droga, havia as epidemias, o contágio, o problema da saúde pública.
Por cá, o Casal Ventoso tornava-se um caso nacional. Incapazes de fazer sair as drogas da rua, as autoridades pensaram em arrasar o próprio bairro. Entretanto, a Spitzsplatz começava a esvaziar-se dos seus hóspedes e recuperava o seu destino de parque urbano novamente devolvido à cidade do lazer, deixando de atrair fotos de choque às primeiras páginas. Que acontecera? A poucas centenas de metros da Spitzsplatz, um espaço de cuidados inovador ensaiava um programa de administração terapêutica de heroína. Isso mesmo, heroína. Estávamos em 1994. Avaliado o impacto deste programa na saúde pública e na criminalidade, a população referendou-o positivamente. E hoje, na conservadora Suíça, temos programas destes em mais de metade dos cantões.
Relembramos o caso suíço numa altura em que importantes figuras públicas lançaram o debate sobre as salas de injecção assistida. João Goulão, Presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência, pronunciou-se já publicamente, em Novembro e em Janeiro últimos, sobre o assunto, mostrando-se favorável à rápida abertura das primeiras estruturas deste tipo. Jorge Sampaio, que desde o início do seu mandato revelou uma particular sensibilidade ao problema das drogas, referiu-se em Dezembro a esta questão, invocando as experiências-piloto em vários países europeus e salientando que o debate deve estar sempre presente e que os governos devem discutir essa situação. O que são “salas de chuto”? E o que significa o facto de figuras com altas responsabilidades na nossa vida colectiva as trazerem para o centro do discurso?
As salas de consumo assistido não são simples estruturas para efectuar consumos em condições higiénicas, resguardando os utilizadores da rua e a rua dos utilizadores. A presença do consumidor problemático neste local é também a oportunidade para realizar acções que dividiremos em: educativas (aquisição e reforço de hábitos saudáveis a nível físico, psicológico e social; educação para a cidadania); encaminhamento para os recursos socio-sanitários e/ou clínicos já existentes; escuta activa (facilitar um espaço de descarga emocional); enfermagem. Todas estas intervenções estão intimamente relacionadas, tendo como eixo central a educação para a saúde.
A instalação de “salas de chuto” não é uma medida aventureira. Corresponde apenas à constatação muito pragmática do falhanço de décadas de políticas criminalizadoras das substâncias psicoactivas. A solução que propunham era afinal parte do problema. Balanço da “guerra às drogas”: cada vez mais vítimas e nenhuns vencedores. O proibicionismo seria responsável por uma série de efeitos colaterais: a prática do consumo injectado como modo de rentabilização dum produto excessivamente caro para o utilizador; mercados de rua fixados nas zonas mais fragilizadas das cidades, contribuindo para o agravamento das suas dificuldades estruturais; a ilegalidade dos mercados como favorecedora do envolvimento no negócio de delinquentes de carreira, reforçando assim a sua posição na hierarquia do crime; a condenação do utilizador regular a uma série de juízos negativos e de perseguições que, em muitos casos, terminam em forte estigmatização e no engrossar do contingente de indivíduos em errância e em exclusão social; a associação do financiamento para o consumo ao pequeno delito urbano e do abastecimento ao crime organizado; os problemas causados à gestão do sistema penitenciário pela chegada à prisão duma grande quantidade de dependentes de drogas duras; a violência policial contra certos grupos marginalizados com o pretexto da repressão ao tráfico… Dito doutro modo, uma parte importante dos riscos e danos que as políticas de saúde baseadas na redução de riscos procuram minorar são decorrentes, não da natureza química das drogas, não da natureza psicológica dos seus utilizadores – mas do próprio modelo proibicionista.
As salas de injecção assistida devem ser entendidas como uma das respostas num vasto conjunto de políticas de saúde que se dirigem à minimização de danos em populações de consumidores problemáticos duramente atingidas pela longa trajectória de consumos e de insucessos nas tentativas de paragem e ditas, frequentemente, em “exclusão social”. A partir do final dos anos 80 são dados passos importantes principalmente em Inglaterra, na Holanda, na Suíça e em Espanha: programas de substituição opiácea com metadona, troca de seringas em meio livre e em meio prisional, salas de injecção assistida, programas de administração terapêutica de heroína. O locus e os intérpretes destas medidas também se modificam: trabalho de proximidade através de equipas de rua, grupos de auto-ajuda promovidos por associações de utilizadores de drogas, envolvimento destes na intervenção.
A experiência de instalação de salas de consumo de menor risco em vários países demonstra que, de início, é sempre uma iniciativa impopular, incompreendida e duramente criticada. Por sua vez, os profissionais de redução de riscos tendem a pensar que este tipo de intervenções se justificam de forma auto-evidente. Estamos perante duas posições de extremo que só o debate pode aproximar. O Dec.-Lei 183 de 2001 consagra já as políticas de redução de riscos em Portugal, incluindo este tipo de salas. O tiro de partida para uma discussão séria foi lançado por vozes autorizadas. Resta, agora, passar à acção, ultrapassando o tique nacional de termos leis muito avançadas, mentes muito esclarecidas e uma passividade que nos tem custado um dos últimos lugares no ranking da União Europeia.

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